domingo, 19 de outubro de 2008

Preocupação

Ah, e ela esquece do mundo!
Entra em transe, mas tão, tão profundo,
que só pensa na mesma coisa, todo o tempo,
em todos os segundos.

Alguns acham ridículo,
outros acrilírico,
eu acho, eu acho que
é muito por tão pouco!

É uma alegria sem fim
quando com ele ela está,
mas esquece de tudo, do mundo,
de mim.
De todos os 'mim'.

Esquece de olhar o espelho,
esquece de tocar o som,
aquele som.

Mas, quando chega ao fim,
corre e se escorre.
Fica sem chão, rumo
ou direção.

E, agora, não sei.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ana e o Mar - Terceira Parte do Primeiro Ato

"Virá um tempo em que as vozes do solo e das plantas cantarão apenas lamentos."

-

Seu pai estava imóvel na cama quando ela entrou.
Sentiu um arrepio, uma tontura, e desmaiou.
Quando acordou, viu um Palhaço ao seu lado.
Tinha o cabelo azul, era pequeno e branco como uma nuvem.
Sua voz soou meio tímida e compacta devido, provavelmente, ao tamanho do seu corpo.

- Arnaldo, prazer.

Ana se levantou em um pulo rápido e girou a cabeça tentando encontrar alguma coisa, mas a cama ao seu lado estava vazia e as pessoas estranhas tinham ido embora. Só restou aquela criaturinha em miniatura, olhando fixamente nos seus olhos, com um sorriso inabalável.

- Quer café?
- Não obrigada. Onde está meu pai?
- Foi levado pra Alexandria.
- Como assim 'levado pra Alexandria'? - e levantou-se da cama soerguendo o corpo num único baque;
- Foi o que me disseram. Ele que me deixou aqui pra cuidar de você. - Arnaldo a encarava de baixo pra cima, numa posição pateticamente inferior, mas seu olhar era fixo e determinado;
- E de onde você é, Arnaldo? - um tom de deboche foi percebido;
- Sou um Filho do Sol!

Ana caiu na risada.
Não pôde deixar de caçoar daquela piada.

- E eu sou Deva, o pai de todos os palhaços! - disse ela o encarando com aqueles olhos azul-madre-pérola; vou procurar meu pai, é o melhor que eu faço.

Saiu então em direção à porta.
Baque.
Quando abriu a porta, sentiu como se todas as bestas do mundo inferior estivessem rondando a Floresta da Lembrança. Um odor de enxofre percorreu suas narinas, enquanto um calor imenso tomou conta da sua casa que, com certeza, estava protegida de tudo aquilo por magia.
As árvores estavam morrendo.
O solo estava morrendo.
Os animais estavam morrendo.
O mundo estava morrendo.
Parecia que, em apenas 12 horas, o mundo tinha virado de cabeça pra baixo: seu pai doente, a Floresta perecendo, um palhaço que mais parecia um gnomo lhe fazendo companhia, e só ela pra cuidar de tudo isso.
Fechou a porta.

- Arnaldo, Arnaldo! - se abraçou com ele o mais rápido que pôde: apesar de desconhecido, era sua única companhia; quero sair daqui, quero meu pai! quero minha Floresta de volta!

- Calma, moça, calma! Calma que tudo se resolve!

Começou a chorar num pranto sem fim.
Mas estava decidida.
Iria atrás dos Filhos do Sol!
Lenda ou não, seria sua última chance.
Uma Floresta dizimada, seu pai doente, o mundo se acabando.
'O que está acontecendo?', pensou.
Seu pai lhe disse, uma vez, que os Filhos do Sol já tinham sido reunidos há muito tempo, quando o grande imperador do deserto, Sadhi*, ficou louco pelo poder e começou a destruir todas as vilas do Continente do Fogo para ter mais terras e escravos.
Da sua batalha com os Filhos do Sol, só restou seu túmulo, bem no meio do deserto que recebeu seu nome, o Deserto de Sadhi.

Colocou sua capa invisível, um pouco de pó-de-grifo, algumas maçãs e rosas comestíveis, colocou Arnaldo no braço, e se foi.
Sem rumo, ou direção.
Ou melhor, ela seguia o Sol.

-

Nota:

* Sadhi foi o maior imperador que o mundo já viu. Governou as areias do deserto por quase um século, mas ficou louco pelo poder. Os Filhos do Sol tiveram de intervir em seus planos, pois o mundo estava se acabando. Foi a primeira e única vez que foram vistos sete sóis brilhando no céu.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sorriso

Te ver de repente é bom demais,
é mais inocente que ser bom rapaz,
eu me sinto em Pasárgada,
me sinto em casa.

Abraçar você é melhor
do que tudo que eu possa dizer,
é um não querer mais que bem querer,
é ficar contente sem saber da dor que a gente sente.

É me pintar de palhaço
pra sentir o calor do teu abraço.
É te esperar toda noite
com os olhos fechados.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ana e o Mar - Segunda Parte do Primeiro Ato

Estando no lago, era como se o som do vento batendo nas águas fosse igual ao cheiro da brisa que entrava pelo seu nariz, e o céu azul parecia mais azul que o normal, com os golfinhos voadores acima de sua cabeça, ela começou a compor.

"Queria eu ver as laranjeiras sorrirem,
queria eu não ter mais de sofrer por elas,
queria eu ver A Floresta Da Lembrança nova,
queria ver o mundo como ele já foi um dia."

A Floresta em que Ana morava estava se perdendo, com a lembrança e o sentimento de cada ser vivente naquela terra, pois tudo agora era triste e infeliz, porque, de alguma forma, o material estava superando o que havia de mágic naquele mundo, de modo que as pessoas se preocupavam mais em ter uma roupa cara do que ter uma alma rara.
Passou todo o resto da manhã no lago, voltando para casa ao meio dia.
Chegando lá, havia algo de estranho, muitos animais e palhaços* haviam cercado a árvore do seu pai**, enquanto um esquilo veio à ela e disse:

'Caiu'.

-

Nota:

* Os Palhaços do mundo de Ana e o Mar devem ser vistos como uma raça diferente da humana, da mesma forma que os elfos de J.R.R. Tolkien, e não como pessoas normais.
São criaturas dotadas de magia e especiais em muitas coisas. Em breve mais informações.

** Na Floresta da Lembrança, cada ser do mundo tem uma árvore que tem as características do interior de seu respectivo 'dono'. Por exemplo: se a pessoa estiver triste, a árvore amanhecerá com as folhas murchas, se ela estiver cansada, a árvore vai aparentar estar balançando pra cair etc.

-

Sobre o Mundo [1]:

No início, Deva, O Primeiro Palhaço, havia usado a magia que tinha para criar Alexandria.
A cidade prosperou, mas Deva ainda não estava satisfeito. Não tinha conseguido, de fato, achar o que tanto queria e esperava. Então ele criou outros 7 Palhaços, a quem chamou de Filhos do Sol. Os desproviu de memórias, pois não podiam lembrar quem realmente eram e, com cada um desses Palhaços, ele deixou um pouquinho de sua magia, pra que, quando estivessem por algum motivo juntos, algo pudesse ser criado, pra transformar de novo o mundo no que algum dia ele já foi.


terça-feira, 7 de outubro de 2008

Chuva

Tinha esperado por um bom tempo.
Beijou molhado, com a água escorrendo pelas suas costas.
E as mãos dela o abraçando, e seus olhos nos dela, e aquela síntese de todos os momentos bons que ele já viveu misturados num único brilho de olho.
Foi seu primeiro beijo na chuva.

domingo, 5 de outubro de 2008

Faca

Ele ia se operar naquele dia.
Tinha medo de deixar as pessoas pra trás pois, apesar de ser uma pessoa muito fresca, a cirurgia tinha em si um certo risco.
Pensava na mãe, no pai, nos irmãos, mas a namorada, a amiga, a companheira era quem mais vinha à cabeça.

- Eu volto, pode me esperar.

Disse ele a ela antes de viajar - a cirurgia seria feita em outra cidade.
Foi então, sem medo, apenas ansioso.
O quarto era branco, tinha apenas um banheiro. Com ele, sua mãe e sua tia.
Colocou um avental branco e uma cueca que tinha de ser 100% algodão e esperou a cadeira de rodas que o vinha buscar.

- Bom dia, com licença.

A enfermeira entrou e pediu pra que ele se acomodasse no assento.

- Tchau mãe, tchau tia, amo vocês.

O corredor estava vazio, e havia alguns gritos e gemidos de dor ao passar pela enfermaria.
O elevador de serviço era grande o suficiente pra carregar duas macas com pessoas e seus respectivos acompanhantes.

A sala em que ele ficou esperando o médico estava escura e solitária.
Passados três minutos, chegou outra pessoa para buscá-lo.
Chegou na sala, começaram a ser colocados eletrodos em seu busto e pulsos.
Uma agulha de suporte foi levemente injetada na veia da mão esquerda, enquanto uma touca foi colcoada na cabeça. As únicas palavras que ele lembra antes de apagar foram da anestesista.

- Não se preocupe, estamos aqui pra fazer o melhor por você.

Acordou com alguém mexendo nele.

- Ele tá acordando.
- Venha pra maca.

E fez um leve esforço pra mudar de leito.
Sua tia que é enfermeira acompanhou toda a cirurgia.
Apertou a mão dele e disse:

- Você foi ótimo, ocorreu tudo bem.

Chegou no apartamento meio dopado ainda, e recebeu dois beijos e felicidade.
Conseguia falar sem sentir dor.

- Ela ligou, mãe?
- Umas dez vezes.

E sorriu.

- Quer ligar pra ela?
- Quero sim!

...

- Ele já saiu, pediu pra ligar pra você.
- Oi.
- Tô vivo!

Ele ouviu risos do outro lado da linha.

- Deu tudo certo mesmo?

A voz dela tinha um tom de felicidade.

- Tudinho. Mais tarde eu te ligo, tá?
- Tá minha vida, te amo.
- Te amo também.

Passou mais doze dias sem vê-la, com uma faixa no pescoço.
Foi estranho beijar de novo.

sábado, 4 de outubro de 2008

Cachoeira

Fazer canções,
num rio frio,
negro em inspiração.

Robusto, forte,
artista de banda marcial,
de todo dia de carnaval,
de todo sul e todo norte.

Engana, brinca,
de todo o tempo
a ginga,
a cachoeira que se abre.

E desce.