terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ana e o Mar - A Guerra do Fogo

Sobre o Mundo [2]

Sadhi foi um exímio guerreiro.
Cavalgou pelas Planícies Douradas de Godan por muito tempo, fazendo a guarda do Império da Areia. O comércio começou, então, a surgir no Mundo. Primeiro começaram a trocar conhecimento. Você ensinava alguma coisa considerada importante a alguém que quisesse aprender e, em troca, recebia ou algum tipo de mercadoria ou até mesmo outro tipo de conhecimento.
Havia um sábio que tinha compartilhado vários conhecimentos com os Dragões das Montanhas, seu nome era Ramuh.
Ramuh foi um dos primeiros seres pensantes a pisar no planeta e, graças aos seus conhecimentos e experiência, os humanos conseguiram desatar os nós que formam a realidade. Isso mesmo, toda a realidade é constituída por 'nós'. Palhaços e Dragões são duas das únicas raças que conseguem desatar e moldar esses nós a seu bel prazer, de forma que os leigos chamem essa habilidade de 'mágika'. A mágika é justamente essa capacidade; a capacidade de transmutar a realidade.
Sadhi foi o melhor discípulo que Ramuh pôde ter. Dedicado, inteligente e, acima de tudo, descendente direto da linhagem que Deva deixou; ou seja, tinha uma exímia aptidão para a mágika.
O tempo foi passando, até que Ramuh percebeu que o que poderia passar para Sadhi ele já havia passado. Sadhi, então, utilizou o que sabia para conquistar, de forma justa e sincera, o trono de imperador. Adotou Ramuh como seu conselheiro, uma vez que tudo que sabia devia, de certa forma, a ele.
Era incrível o status que ele havia conseguido!
Ah, todas aquelas mulheres, todos aqueles servos, todo aquele poder!
E, ainda por cima, todo aquele respeito!
Respeitado até pelos Magos Brancos do Gelo, e até mesmo pelos tão temidos Dragões das Montanhas!
Porém, Sadhi não estava satisfeito.
Não queria apenas ser respeitado, ou ter mil servos, ou deitar-se com a mulher que quisesse.
Ele queria mais, bem mais.
Queria o status de divindade, queria ser conhecido não como imperador, mas como um deus.
Achando injusto e desnecessário, Ramuh tentou intervir e Sadhi o assassinou cruelmente na frente de toda a corte.
Começava então uma era de treva e escuridão para o Continente do Fogo e, consequentemente, para o resto do mundo.
Sadhi enlouqueceu com uma morte.
Até então, as pessoas tinham morrido apenas de morte natural, tal pecado não havia sido cometido entre humanos.
A realidade ficou, então, abalada.
Sadhi agora estava amaldiçoado.
Nem um filho, nem um herdeiro, nem um descendente jamais teria paz em vida enquanto Sadhi vivesse!
Então ele procurou ajuda nas Terras das Sombras.
O terrível continente onde nenhum ser visitou e voltou inteiro.
As feiticeiras exigiram muito em troca.
'O peso de uma morte é grande, mas não irremovível' diziam elas.
Para isso, ele teria de oferecer metade de suas terras e a pessoa que mais amava na vida.
Matou também sua mãe, e começou a dizimar todo o continente em busca de mais terras para doar às Terras das Sombras.
Foi então que eles apareceram.
De repente, sete sóis surgiram nos céus, e uma luz diferente tomou conta de todo o mundo.
Sadhi viu sete seres descendo em cada ponto da terra, cada um carregando um Sol em suas mãos.
Viu, também, uma estrela lilás que brilhava ainda mais forte que os sete sóis juntos.
Deva estava pisando na terra de novo.
Batalharam Sadhi, os Filhos do Sol e Deva.
As Terras das Sombras enviaram esforços e reforços, e o estrago por isso foi imenso.
Civilizações destruídas, florestas dizimadas, e até mesmo Alexandria, fruto da mágika do próprio Deva teve de ser reconstruída.
Dessa batalha, conhecida como a Guerra do Fogo, restaram apenas lembranças e um único guerreiro, instruído por Deva a permanecer na terra por carregar consigo a esperança nos olhos. Esse guerreiro foi divido pela Natureza em duas partes. Uma, colocada no desconhecido, nascido da vontade de Deva. A outra, colocada nas Florestas, filhas do Tempo e da Natureza. Um dia, o mundo precisará deles de novo.
Essa é a estória da Guerra do Fogo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ana e o Mar - Última Parte do Primeiro Ato

'Então, ela viu que o céu era sem fim.'

-

A Floresta estava úmida e densa. Podia-se ouvir ruídos de galhos sendo quebrados pela própria poeira, e era perceptível só com o coração, tão apertado, de que as árvores estavam pedindo socorro. Sussurros de vozes trazidas pelo vento, cheiros queimados pelo fogo, aquele fogo que incendeia mas não queima, aquele fogo que corrói mas não destrói.
Ana fechou a porta atrás de si, e era como, de novo, se a Floresta estivesse simplesmente morta, sem vida. Havia uma trilha que ela sempre seguia, mas agora está destruída.

- Arnaldo, qual o caminho mais seguro?; ele pára, olha pra ela e responde.
- Nas atuais circunstâncias, nem um caminho é seguro, Donana!; ela ficou meio apreensiva, olhou ao redor, e percebeu uma fresta de sol que descia pela copa das folhas dos gigantescos pinheiros e sequóias.
- É por ali!; e saiu com Arnaldo - agora no chão por conta do peso - em seu encalço.

-

Do outro lado da Floresta, ela se preparava.
Pôs seu chapéu cor-de-rosa, sua camisa florida e aquela saia vermelho-marrom, de que tanto gostava. 'É daqui a pouco', pensou.
Passou seu batom, também vermelho, e olhou pra fora daquela janela de madeira bem polida, que tinha antes sido colocada na sala de visitas daquela sequóia-rúbea.
Fazia tempo que não era chamada. A última vez foi há mais de mil anos, quando aquele rei louco da areia decidiu querer dominar o mundo. Mas está feliz, acima de tudo. Vai rever seus irmãos em breve, tem certeza. A única que sabe, de fato, quem é e porque está ali é ela. Colocada pelo próprio Deva pra acordar os 'outros'. Ela coloca sua bolsa de flores, olha uma última vez pelo espelho, e sai. Alguém a espera.

-

Andaram cerca de uma hora, e ela percebia que ainda faltava muito pra chegar ao fim do caminho. Parou, então, para descansar.

- Arnaldo?; olhou para ele, encostado numa árvore.
- Oi, Donana!
- De onde você veio mesmo?
- Alexandria, a cidade dos Palhaços!; os olhos dele brilharam com aquela resposta.
- E lá é bom pra se viver?
- Ah, Donana, é bom sim! Só que o povo é muito materialista, sabe? - ficou meio pensativo com essa resposta - Assim, se importam muito com as aparências, com a beleza física das coisas, e se esquecem que, às vezes, a beleza real de uma pessoa está num gesto, num olhar, numa atitude. E isso me preocupa, porque eu já vi muitas pessoas perdendo outras por brincadeira, por terem falado algo ou cobiçado uma simples roupa numa daquelas lojas. A real essência das coisas é a alma, e é isso que eu acho.

Ana pára e o observa.

- Você tem irmãos, Arnaldo?
- Tenho sim, Donana, tenho sim!; se levantou de um pulo só e começou a gesticular no ar - Sou irmão dos 7 Palhaços que Deva fez! Ele me deixou aqui pra cuidar pra que o mundo não ficasse na mesmisse e pra que, quando fosse necessário, eu fosse atrás deles pra o mundo voltar a ser melhor! - ah, e abriu um sorriso gigantesco quando disse isso.

A menina duvidou que alguém pudesse ser tão sincero consigo mesmo, porque aquele brilho nos olhos era, sim, totalmente sincero.

- E a senhora, Donana, tem irmãos?
- Senhora não que eu não sou velha!
- Ah, tá, desculpa. - e se recolheu na árvore em que havia se sentado novamente e começou a comer.

- As pessoas se esquecem de que as outras também têm sentimentos.

Ana franziu o cenho e olhou para ele com uma cara interrogativa.

- É, é isso mesmo. Em Alexandria, o egoísmo das pessoas já superou tanto o amor que uma sente pela outra que agora é cada um por si, cada um falando mais alto que o outro, cada um que não respeite a opinião do outro. Os comerciantes aumentam os preços dia após dia, as famílias vão se desestruturando, os governantes são corruptos e roubam...

Suspira.

- Desculpa, não foi minha intenção te machucar; o abraçou forte, um abraço daqueles, que valem um 'eu gosto muito de você, seu cabra!'.

Então, ouviram um estalo de galhos.
Ana se levantou e tirou logo sua capa invisível enquanto Arnaldo apontava sua mão pra todos os lados, como se estivesse preparando a ação pra alguma coisa.
Olhos vermelhos de monte começaram a aparecer na penumbra por detrás das árvores. Um odor de enxofre novamente foi sentido. Não esperou mais nada, colocou Arnaldo nos braços e correu sem rumo.

- Me solta, me solta, me solta que eu acabo com eles!
- Deeeeixa de falar besteira, são muitos!; adrenalina à mil, Ana começou a entrar em cada buraco que nunca havia entrado, enquanto sua respiração começava a ofegar. Até que uma das criaturas pulou em cima dela!
Aqueles olhos entravam na alma de quem os olhasse. Eram vermelhos como o fogo, e aquela mandíbula tentando arrancar algum pedaço de carne agora doía entre seus braços.
Foi aí que uma luz forte foi vista e ela sentiu não só a criatura que a encurralva, mas todas as outras sumindo frente à luminosidade. Desmaiou.

*

O cheiro de rosas era perceptível, estava meio cansada, e sentia alguém segurando seu braço. Ouviu a voz de Arnaldo:

- Ela está acordando!

Quando abriu os olhos, viu aquela Palhaça com o chapéu rosa segurando seu braço que, agora, estava se regenerando. Estava num vasto campo, e a copa das árvores da Floresta da Lembrança podiam ser vistas a longe. Ouviu a Palhaça dizer:

- Sou Amália, moça bonita, e você deve ser Ana!

Percebeu, antes de mais nada, um Sol dourado pintado em seu rosto, e um cordão com o mesmo sinal em seu pescoço. Então, ela olhou nos olhos de quem a ajudava, e eles tinham a cor da esperança.

Fim do Primeiro Ato

domingo, 19 de outubro de 2008

Preocupação

Ah, e ela esquece do mundo!
Entra em transe, mas tão, tão profundo,
que só pensa na mesma coisa, todo o tempo,
em todos os segundos.

Alguns acham ridículo,
outros acrilírico,
eu acho, eu acho que
é muito por tão pouco!

É uma alegria sem fim
quando com ele ela está,
mas esquece de tudo, do mundo,
de mim.
De todos os 'mim'.

Esquece de olhar o espelho,
esquece de tocar o som,
aquele som.

Mas, quando chega ao fim,
corre e se escorre.
Fica sem chão, rumo
ou direção.

E, agora, não sei.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ana e o Mar - Terceira Parte do Primeiro Ato

"Virá um tempo em que as vozes do solo e das plantas cantarão apenas lamentos."

-

Seu pai estava imóvel na cama quando ela entrou.
Sentiu um arrepio, uma tontura, e desmaiou.
Quando acordou, viu um Palhaço ao seu lado.
Tinha o cabelo azul, era pequeno e branco como uma nuvem.
Sua voz soou meio tímida e compacta devido, provavelmente, ao tamanho do seu corpo.

- Arnaldo, prazer.

Ana se levantou em um pulo rápido e girou a cabeça tentando encontrar alguma coisa, mas a cama ao seu lado estava vazia e as pessoas estranhas tinham ido embora. Só restou aquela criaturinha em miniatura, olhando fixamente nos seus olhos, com um sorriso inabalável.

- Quer café?
- Não obrigada. Onde está meu pai?
- Foi levado pra Alexandria.
- Como assim 'levado pra Alexandria'? - e levantou-se da cama soerguendo o corpo num único baque;
- Foi o que me disseram. Ele que me deixou aqui pra cuidar de você. - Arnaldo a encarava de baixo pra cima, numa posição pateticamente inferior, mas seu olhar era fixo e determinado;
- E de onde você é, Arnaldo? - um tom de deboche foi percebido;
- Sou um Filho do Sol!

Ana caiu na risada.
Não pôde deixar de caçoar daquela piada.

- E eu sou Deva, o pai de todos os palhaços! - disse ela o encarando com aqueles olhos azul-madre-pérola; vou procurar meu pai, é o melhor que eu faço.

Saiu então em direção à porta.
Baque.
Quando abriu a porta, sentiu como se todas as bestas do mundo inferior estivessem rondando a Floresta da Lembrança. Um odor de enxofre percorreu suas narinas, enquanto um calor imenso tomou conta da sua casa que, com certeza, estava protegida de tudo aquilo por magia.
As árvores estavam morrendo.
O solo estava morrendo.
Os animais estavam morrendo.
O mundo estava morrendo.
Parecia que, em apenas 12 horas, o mundo tinha virado de cabeça pra baixo: seu pai doente, a Floresta perecendo, um palhaço que mais parecia um gnomo lhe fazendo companhia, e só ela pra cuidar de tudo isso.
Fechou a porta.

- Arnaldo, Arnaldo! - se abraçou com ele o mais rápido que pôde: apesar de desconhecido, era sua única companhia; quero sair daqui, quero meu pai! quero minha Floresta de volta!

- Calma, moça, calma! Calma que tudo se resolve!

Começou a chorar num pranto sem fim.
Mas estava decidida.
Iria atrás dos Filhos do Sol!
Lenda ou não, seria sua última chance.
Uma Floresta dizimada, seu pai doente, o mundo se acabando.
'O que está acontecendo?', pensou.
Seu pai lhe disse, uma vez, que os Filhos do Sol já tinham sido reunidos há muito tempo, quando o grande imperador do deserto, Sadhi*, ficou louco pelo poder e começou a destruir todas as vilas do Continente do Fogo para ter mais terras e escravos.
Da sua batalha com os Filhos do Sol, só restou seu túmulo, bem no meio do deserto que recebeu seu nome, o Deserto de Sadhi.

Colocou sua capa invisível, um pouco de pó-de-grifo, algumas maçãs e rosas comestíveis, colocou Arnaldo no braço, e se foi.
Sem rumo, ou direção.
Ou melhor, ela seguia o Sol.

-

Nota:

* Sadhi foi o maior imperador que o mundo já viu. Governou as areias do deserto por quase um século, mas ficou louco pelo poder. Os Filhos do Sol tiveram de intervir em seus planos, pois o mundo estava se acabando. Foi a primeira e única vez que foram vistos sete sóis brilhando no céu.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sorriso

Te ver de repente é bom demais,
é mais inocente que ser bom rapaz,
eu me sinto em Pasárgada,
me sinto em casa.

Abraçar você é melhor
do que tudo que eu possa dizer,
é um não querer mais que bem querer,
é ficar contente sem saber da dor que a gente sente.

É me pintar de palhaço
pra sentir o calor do teu abraço.
É te esperar toda noite
com os olhos fechados.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ana e o Mar - Segunda Parte do Primeiro Ato

Estando no lago, era como se o som do vento batendo nas águas fosse igual ao cheiro da brisa que entrava pelo seu nariz, e o céu azul parecia mais azul que o normal, com os golfinhos voadores acima de sua cabeça, ela começou a compor.

"Queria eu ver as laranjeiras sorrirem,
queria eu não ter mais de sofrer por elas,
queria eu ver A Floresta Da Lembrança nova,
queria ver o mundo como ele já foi um dia."

A Floresta em que Ana morava estava se perdendo, com a lembrança e o sentimento de cada ser vivente naquela terra, pois tudo agora era triste e infeliz, porque, de alguma forma, o material estava superando o que havia de mágic naquele mundo, de modo que as pessoas se preocupavam mais em ter uma roupa cara do que ter uma alma rara.
Passou todo o resto da manhã no lago, voltando para casa ao meio dia.
Chegando lá, havia algo de estranho, muitos animais e palhaços* haviam cercado a árvore do seu pai**, enquanto um esquilo veio à ela e disse:

'Caiu'.

-

Nota:

* Os Palhaços do mundo de Ana e o Mar devem ser vistos como uma raça diferente da humana, da mesma forma que os elfos de J.R.R. Tolkien, e não como pessoas normais.
São criaturas dotadas de magia e especiais em muitas coisas. Em breve mais informações.

** Na Floresta da Lembrança, cada ser do mundo tem uma árvore que tem as características do interior de seu respectivo 'dono'. Por exemplo: se a pessoa estiver triste, a árvore amanhecerá com as folhas murchas, se ela estiver cansada, a árvore vai aparentar estar balançando pra cair etc.

-

Sobre o Mundo [1]:

No início, Deva, O Primeiro Palhaço, havia usado a magia que tinha para criar Alexandria.
A cidade prosperou, mas Deva ainda não estava satisfeito. Não tinha conseguido, de fato, achar o que tanto queria e esperava. Então ele criou outros 7 Palhaços, a quem chamou de Filhos do Sol. Os desproviu de memórias, pois não podiam lembrar quem realmente eram e, com cada um desses Palhaços, ele deixou um pouquinho de sua magia, pra que, quando estivessem por algum motivo juntos, algo pudesse ser criado, pra transformar de novo o mundo no que algum dia ele já foi.


terça-feira, 7 de outubro de 2008

Chuva

Tinha esperado por um bom tempo.
Beijou molhado, com a água escorrendo pelas suas costas.
E as mãos dela o abraçando, e seus olhos nos dela, e aquela síntese de todos os momentos bons que ele já viveu misturados num único brilho de olho.
Foi seu primeiro beijo na chuva.