quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ana e o Mar - Primeira Parte do Segundo Ato

'Entrada Para Raros.'

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- Sou eu, sou eu sim!; ela tentou levantar-se com algum esforço. Seu braço ainda estava meio dolorido, apesar da ferida ter se fechado.
- Pode ficar aí deitadinha, você acabou de passar por um momento um tanto adrenalínico!; disse Amália, esboçando um sorriso cor de aurora.
- Sim, mas o que vamos fazer agora? - perguntou Arnaldo, um tanto preocupado.
- Vamos para Alexandria, Arnaldo! Vamos pra melhor cidade do mundo!; Amália abriu ainda mais o sorriso enquanto Arnaldo demonstrava receio e alegria ao mesmo tempo.
- Algum problema, Arnaldo?
- Não, Amália, nenhum!

Ana ficou só ouvindo a conversa, de loooonge.
Se levantaram, e começaram a caminhar sendo guiados pela Montanha Gelada: Alexandria ficava cerca de dois dias de viagem a oeste delas.

E assim foi, dois dias de viagem. Às vezes eles paravam em alguma fonte ou rio, às vezes dormiam em algum bosque que encontravam pelo caminho. Amália contou a estória dos Filhos do Sol de como ela conhecia, de forma mais completa e coerente. Ana e Arnaldo só ouviam, em pleno silêncio. Contou também como surgiu o Mundo.

'No começo, havia apenas o Nada e o Limbo. Estes deram origem a um ser chamado Deva, que, por sua vez, em sua solidão eterna criou uma esfera de vida gigantesca, de forma a fazer companhia a ele mesmo. Porém, Deva se viu tão só, que das lágrimas que de seu rosto escorriam nasceram os rios e oceanos, e essas mesmas águas regaram a terra infértil do Vale Desconhecido, dando origem à todas as formas de vida e, consequentemente, à Floresta da Lembrança.
Para habitar essas formas de vida, Deva construiu com sua magia a cidade de Alexandria.
Alexandria foi considerada sua obra prima. Esculturas colossais e verdadeiras obras arquitetônicas encorporam todo o ar mágico da cidade.'

E o resto vocês já sabem!

Arnaldo parou e disse:

- Mais, mais, conta mais!
- Ah, amanhã eu conto, já tá na hora de dormir!; deu um sorriso e o cobriu com um cobertor improvisado de folha de cerejeira; Amanhã será um longo dia! - disse ela beijando-lhe a testa.
- Porque, Amália?; indagou Ana, que já estava tonta de sono.
- Chegaremos em Alexandria amanhã, esqueceu? Nada de comermos qualquer coisa que encontrarmos pela frente ou tomarmos banho nos escondendo de Arnaldo!; e deu início a uma gargalhada que logo foi contida.
- Ah, é verdade. Mas o que vamos fazer lá, exatamente?
- Vamos buscar ajuda; e continuou com aquele sorriso costumeiro em seu rosto.
- Podemos procurar meu pai? - um brilho diferente nasceu nos olhos dela, era o início de lágrimas. - Soube que ele foi levado pra lá mas não me deram mais nenhuma informação!
- Claro que podemos! Vamos achá-lo nem que tenhamos de rodar toda a cidade! Mas, para isso, a mocinha tem que dormir. Boa noite, meu anjo, até amanhã!; e beijou sua testa, também.

Pela primeira vez em muito tempo ela recostou sua cabeça estando com o pensamento leve. Não queria saber se o solo era de massapê ou se era um travesseiro de plumas: ela estava bem consigo mesma, apesar de tudo.

*

- Ana?; ela ouviu a voz lhe chamando ao longe; Ana, acorda, já amanheceu - tinha dormido tão bem que havia perdido a hora. Acha que sonhou com sua mãe. Acha.
- Vamos sim, Amália. Cadê Arnaldo?; olhou em volta e não viu o palhacinho.
- Pedi pra ele ir se lavar longe da gente.

Ana deu uma gargalhada que não dava há muito tempo. Realmente, essas pessoas lhe fazem um bem tão grande...

Assim que Arnaldo voltou do riacho eles seguiram caminho.
Não demorou muito até que se visse, de longe, a gigantesca estátua erguida em homenagem ao sol. Tinha um contorno de cobre com o interior dourado, enquanto os raios reais eram refletidos pela sua grandeza.

- Até que enfim, chegamos!; Amália abriu um sorriso gigantesco quando proferiu essas palavras.

A primeira coisa que Ana viu foi a estátua, é claro. Depois, viu aquela multidão passeando e fazendo compras, enquanto ouvia um bardo anunciar, em cima de um banco, aos berros:

- Só hoje, n'A Taverna, o maios espetáculo de todos os tempos!; e entregou, enquanto ela passava, um panfleto que Arnaldo e Amália se esticaram para ler. Nele, estava escrito as seguintes palavras:

'O Teatro Mágico: Entrada Para Raros'

Um comentário:

As mulheres. disse...

isso tá ficando melhor a cada dia. *-*